Esta quadra festiva deixa-me irritadiço. Não aguento mais de 15 minutos nos grandes centros comerciais e o comércio local tem muitas limitações.
Assim, quase nunca ofereço prendas neste período. Os meus familiares e amigos já se habituaram e vão aceitando as minhas manias. No entanto, há imponderáveis. Surgem para perturbar a minha ordem e para me obrigarem a ir às compras.
As grandes superfícies, normalmente, locais de romaria, nesta época são um caos. A música, as luzes, as cores alegres, a gente nova e bem disposta, tudo serve de chamariz para a festa. E as pessoas vão. E o ar de festa aumenta com o barulho desta alegre multidão. Famílias inteiras, casais, isolados, todos pretendem o seu momento de alegria e as tristezas que fiquem para o ano que vém. Eu tento. Mas devo sofrer de alguma fobia que me impede de tirar prazer dessas idas. A própria música me incomoda; as luzes a piscarem, a seguirem um desenho lógico de acende/apaga, deixam-me tonto; o mar de gente e a obrigação de ter cuidado com os da frente, com os do lado e com os que nos seguem, cansa-me. Vinte minutos, no máximo, é o que aguento.
Viro-me, então, para as lojas aqui ao lado. Para as da terra. Compro no comércio local e evito as confusões. Pode ser, ligeiramente, mais caro, mas compensa.
Pensava eu. Tive que ir, o tal imponderável de última hora, comprar um perfume. Sabia o que queria e onde havia. Não contava com as excelentes qualidades do comércio tradicional. A simpática empregada que atendia uma senhora, desfazia-se em sorrisos e estava sempre solícita para os pedidos da cliente. Esta, hesitava entre um botão, de determinada cor e feitio, e um outro, de outra cor e de outro feitio.
Eu estava a ver, na prateleira à minha frente, o que me tinha levado lá, mas a senhora não se decidia e a empregada não podia ser mais simpática. Corria a ir buscar mais uma caixa que talvez tivesse exactamente o que ela pretendia. Não, não eram bem daquele género. Ah! Então só podem ser destes. E outra caixa surgia com mais botões, mais cores, mais feitios.
Finalmente assustei-me. Olhe! São exactamente estes que quero. E vou levar os dois. A senhora percebeu muito bem o que eu queria. Por isso é que eu gosto de vir às lojas da nossa terra. Somos conhecidos, bem tratados, com respeito e simpatia e não há gentes aos empurrões nem ninguém a mandar-nos apressar.
Sim, fui bem atendido. Paguei um pouco mais do que pagaria no centro comercial. A empregada foi, também, simpática comigo. E, mesmo assim, não devo ter demorado mais do que se tivesse comprado numa qualquer catedral do consumo.
Então, porquê esta irritação? Porque é que continuo a jurar a mim próprio que nestes dias não me apanham a fazer compras? Salvo, claro está, alguma emergência de última hora...